Terminado o monólogo, ela retirou suas luvas e jogou à platéia. Os trotes amadeirados do salto luxuosamente caro cruzaram a linha da coxia como se fossem sua sombra.
Nos bastidores, acendeu seu cigarro com desgosto e inspirou rapidamente seu primeiro trago; fazia mal - sabia - mas o descer da áspera fumaça pelo seu peito lhe trazia uma incrível vontade de sofrer mais.
Assinou os últimos autógrafos, mandou os últimos beijos e arreganhou os últimos sorrisos amarelados para as câmeras intrometidas. Não tardando muito, subiu com um ofego nervoso para o camarim. Fechou a porta e qualquer sentimento vivo que ainda existia.
Rispidamente esfregou a toalha em seu rosto, e os felpos, que antes pareciam tão dóceis e confortáveis, se debatiam como lixa cruel em sua pele. Os movimentos foram ficando cada vez mais incontroláveis; já não se distinguia o que era lágrima, suor, ou removedor de maquiagem.
Olhou para si, sabia que estava um lixo. As luzes dos holofotes nunca a deixaram tão velha, e sua carreira, de fato, agora estava reduzida a um rosto macilento e frio.
O arranhar da porta bruta quebrou o silêncio que a fazia refletir. Pela fresta, a camareira só espiou o péssimo estado dela; desistiu, voltou com seus aparatos e foi limpar outro camarim.
Porém, o silêncio é o que ela menos queria. Sentia que às vezes a reflexão atinge a gente de maneira ofensiva, que machuca, ilude, e depois termina com seus preceitos de um jeito incisivo.
Não podia refletir, não queria. Com um ímpeto, ufaniu-se pelo lixo que ainda era e saiu pelo camarim deixando toda a humildade nele. Queria beber seu licor diário, queria se vingar, queria mandar, queria a camareira, queria sangue, queria tudo; o surto psicótico fê-la parar por um momento qualquer. Repensou e não voltou atrás; saiu correndo pelos corredores do teatro, precisava descontar a ira da sua realidade em alguém, ah se precisava!
O silêncio do teatro assustou-a de um jeito desesperador. Como assim? Seu palco, sua casa, sua vida, nunca estiveram vazios. Não era possível aquele silêncio, não mesmo.
Desceu as escadarias com pressa incomum. O palco estava todo empoeirado, os holofotes, pênseis e quebrados.
Aquilo não poderia estar acontecendo com o seu palco, que sempre tinha sido seu fiel conselheiro de todas as horas, seu conforto e refúgio.
Saiu às pressas em direção à porta principal da casa de shows, estava emperrada, com um relatório de embargo e pesadas vigas em sua frente.
Viu a rua pela fina janela que ainda esboçava a vida lá fora: a pequena vila havia sido sufocada pelos gigantes de concreto, nas ruas, seus panfletos de sucesso haviam sido substituídos por letreiros digitais de outra musa, agora cheia de silicones e retalhos cirúrgicos.
Queria fugir, mas não conseguia. Queria chorar mas faltavam lágrimas para o seu arrependimento senil; rasgante, subiu ao palco e pôs se a soluçar no próprio pranto, apanhou seu último boá empoeirado e enrolou no próprio pescoço. Lembrava, com certeza, de sua inevitável Deixa cênica.
- Em que espelho - será - ficou perdida a minha face?
No palco, abriu um sorriso para o auditório vazio, já era feito. Ficou à mercê do destino. Quedou-se, agora sentia o cheiro da madeira podre, sim, era como ela; a consistência do mofo recém formado só trazia à tona seu amanhã.
Era um cheiro familiar, texturas aconchegantes e puras, que convidaram-na a se estender pelo palco de madeira podre e a apodrecer junto a ele. Não tardando, foi devorada sutilmente pelos ratos que antes aplaudiam a ela.
Estava consumado.
29.12.09
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Uou :o
ResponderExcluirQue texto triste T_T
UHAUHAUHA
Já estou te seguindo auhauha
Abraço
Bruno, virei sua fã. Muito bom o texto! Consegui até ouvir uma música de fundo, de tão profunda a leitura.
ResponderExcluirQue sua inspiração chegue logo, para que eu volte aqui e leia coisas tão boas quanto esta.
:*
Fiquei com dó dos ratos! =/
ResponderExcluir