O soturno silêncio da noite nunca lhe foi tão prazeroso. Contou cada fragmento de tempo para não estar ali, mas a vontade de sumir falou mais alto.
Não era um motivo qualquer; não brigara com a namorada, não guardara nenhum segredo suspeito, muito menos matara alguém. Eduardo era diferente dos demais, ele não tinha um motivo.
Sentiu o enregelado vento cortar seu rosto. Esboçou um sorriso e seguiu em direção à trincheira que separava sua vontade e sua necessidade. Olhou para baixo; aquela avenida nunca tinha estado tão cintilante naqueles últimos meses, nem o povo tão apressado, enfervecido, formigante.
Lá de cima, via tudo com pouca nitidez, mas refletia sobre o caótico cenário que observava com estima. Por que as pessoas corriam? Era noite. Era fim de muitos expedientes e início dos poucos que ainda restavam.
Ele era dono de tudo, eram todas dele, todas. Aquelas bizarras formigas que cadenciavam em passos da rotina pelo arilhado concreto da sua avenida preferida. Podia sentir o que elas sentiam, podia ter os mesmos sonhos naquela mesma hora, podia aspirar com medo o mesmo ar seco que descia pela garganta delas naquele cenário cheio de luzes ofuscantes dos painéis, dos carros, e do desespero.
Respirava com elas, queria sentí-las. Era um rapaz corajoso, mas nunca pensara que teria como seu principal inimigo um parapeito. Horas de lutas e o vencer já trêmulo, já tenso, já ansioso pela liberdade que buscava.
Deixou os sapatos sobre o muro, sabia que seriam inúteis. Não entendia também o motivo de tudo aquilo, mas tinha cega certeza de que não precisava entendê-lo.
Fixou os olhos nos seus pequenos pontos pretos que via com prazer naquela tão iluminada artéria da cidade. Queria tê-los de perto e sentir o gosto de cada um com o próprio corpo. Galgou-se vorazmente de um dos mais luxuosos edifícios da cidade.
Tinha tudo, todos, nunca lhe faltou nada, nunca lhe precisou nada, nunca, nunca; ele não sabia se essa era a palavra para o momento, mas só sentia o ar, sim, o ar, sempre, vindo ao teu encontro, era sua liberdade, era sua vida, era seu esperado encontro de anos atrás, e vinha com tudo em seu rosto, não estava com medo, não estava com anseio, não estava tenso, não estava nada, não tinha sonho, não tinha gosto, estavam elas bem perto, bem maiores, cresciam, sorriu ao vê-las crescer, como se fossem filhas íntimas, não tinha lembrança, não tinha tempo, não tinha nada. Sólido.
Não tinha gosto. Era rubro, denso, e migrava com precisão pelas entrelinhas das corretas formas da calçada. Tão corretas que serviam de exemplo a ele naquele momento.
Não tardando, foi devorado pelas formigas: o empresário que voltava tarde do trabalho, a vendedora que havia perdido o ônibus, o mendigo que pedia com desgosto cada centavo, o bilheteiro do cinema, o guardinha, o gari. Todas.
Não faria mais nada se estivesse ali, já estava feito. A primeira gota densa agora caía num patagarro qualquer, quem se importava?
Lamentos, sussurros, suspiros. Era um rapaz novo, mas sabiam que nada seria feito, nada.
A manta preta cobriu o menino e seus últimos sonhos. A famigerada marca de giz ainda deixava Eduardo registrado naquela calçada. O povo não sabia de nada, nem as fofocas arriscavam algo sobre o acontecido. Desconheciam, entretanto, que eram dele, só dele, e que, como formigas inexplicavelmente mecânicas, nunca saberiam disso.
Estava ele num parapeito mais alto, etéreo, sideral. Sabia que podia vigiá-las todas dali, com enorme precisão. Sorriu, tinha como se apoiar em sua própria estrela. Percebeu que agora tinha mais formigas do que pensara antes, isso era seu consolo.
Então, o soturno silêncio voltou a engasgar a noite.
30.12.09
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"A manta preta cobriu o menino e seus últimos sonhos." T_T
ResponderExcluir"Sorriu, tinha como se apoiar em sua própria estrela."
Muito boa essa =D
Curti bastante!
Valeu, Deco! :)
ResponderExcluirDissecou mto bem uma mente atormentada! =P
ResponderExcluirUau, muito bem escrito o texto, adorei!
ResponderExcluirParabéns, BrunoFer :D