30.12.09

Formigas

O soturno silêncio da noite nunca lhe foi tão prazeroso. Contou cada fragmento de tempo para não estar ali, mas a vontade de sumir falou mais alto.
Não era um motivo qualquer; não brigara com a namorada, não guardara nenhum segredo suspeito, muito menos matara alguém. Eduardo era diferente dos demais, ele não tinha um motivo.
Sentiu o enregelado vento cortar seu rosto. Esboçou um sorriso e seguiu em direção à trincheira que separava sua vontade e sua necessidade. Olhou para baixo; aquela avenida nunca tinha estado tão cintilante naqueles últimos meses, nem o povo tão apressado, enfervecido, formigante.
Lá de cima, via tudo com pouca nitidez, mas refletia sobre o caótico cenário que observava com estima. Por que as pessoas corriam? Era noite. Era fim de muitos expedientes e início dos poucos que ainda restavam.
Ele era dono de tudo, eram todas dele, todas. Aquelas bizarras formigas que cadenciavam em passos da rotina pelo arilhado concreto da sua avenida preferida. Podia sentir o que elas sentiam, podia ter os mesmos sonhos naquela mesma hora, podia aspirar com medo o mesmo ar seco que descia pela garganta delas naquele cenário cheio de luzes ofuscantes dos painéis, dos carros, e do desespero.
Respirava com elas, queria sentí-las. Era um rapaz corajoso, mas nunca pensara que teria como seu principal inimigo um parapeito. Horas de lutas e o vencer já trêmulo, já tenso, já ansioso pela liberdade que buscava.
Deixou os sapatos sobre o muro, sabia que seriam inúteis. Não entendia também o motivo de tudo aquilo, mas tinha cega certeza de que não precisava entendê-lo.
Fixou os olhos nos seus pequenos pontos pretos que via com prazer naquela tão iluminada artéria da cidade. Queria tê-los de perto e sentir o gosto de cada um com o próprio corpo. Galgou-se vorazmente de um dos mais luxuosos edifícios da cidade.
Tinha tudo, todos, nunca lhe faltou nada, nunca lhe precisou nada, nunca, nunca; ele não sabia se essa era a palavra para o momento, mas só sentia o ar, sim, o ar, sempre, vindo ao teu encontro, era sua liberdade, era sua vida, era seu esperado encontro de anos atrás, e vinha com tudo em seu rosto, não estava com medo, não estava com anseio, não estava tenso, não estava nada, não tinha sonho, não tinha gosto, estavam elas bem perto, bem maiores, cresciam, sorriu ao vê-las crescer, como se fossem filhas íntimas, não tinha lembrança, não tinha tempo, não tinha nada. Sólido.
Não tinha gosto. Era rubro, denso, e migrava com precisão pelas entrelinhas das corretas formas da calçada. Tão corretas que serviam de exemplo a ele naquele momento.
Não tardando, foi devorado pelas formigas: o empresário que voltava tarde do trabalho, a vendedora que havia perdido o ônibus, o mendigo que pedia com desgosto cada centavo, o bilheteiro do cinema, o guardinha, o gari. Todas.
Não faria mais nada se estivesse ali, já estava feito. A primeira gota densa agora caía num patagarro qualquer, quem se importava?
Lamentos, sussurros, suspiros. Era um rapaz novo, mas sabiam que nada seria feito, nada.
A manta preta cobriu o menino e seus últimos sonhos. A famigerada marca de giz ainda deixava Eduardo registrado naquela calçada. O povo não sabia de nada, nem as fofocas arriscavam algo sobre o acontecido. Desconheciam, entretanto, que eram dele, só dele, e que, como formigas inexplicavelmente mecânicas, nunca saberiam disso.
Estava ele num parapeito mais alto, etéreo, sideral. Sabia que podia vigiá-las todas dali, com enorme precisão. Sorriu, tinha como se apoiar em sua própria estrela. Percebeu que agora tinha mais formigas do que pensara antes, isso era seu consolo.
Então, o soturno silêncio voltou a engasgar a noite.

29.12.09

Espelho

Terminado o monólogo, ela retirou suas luvas e jogou à platéia. Os trotes amadeirados do salto luxuosamente caro cruzaram a linha da coxia como se fossem sua sombra.
Nos bastidores, acendeu seu cigarro com desgosto e inspirou rapidamente seu primeiro trago; fazia mal - sabia - mas o descer da áspera fumaça pelo seu peito lhe trazia uma incrível vontade de sofrer mais.
Assinou os últimos autógrafos, mandou os últimos beijos e arreganhou os últimos sorrisos amarelados para as câmeras intrometidas. Não tardando muito, subiu com um ofego nervoso para o camarim. Fechou a porta e qualquer sentimento vivo que ainda existia.
Rispidamente esfregou a toalha em seu rosto, e os felpos, que antes pareciam tão dóceis e confortáveis, se debatiam como lixa cruel em sua pele. Os movimentos foram ficando cada vez mais incontroláveis; já não se distinguia o que era lágrima, suor, ou removedor de maquiagem.
Olhou para si, sabia que estava um lixo. As luzes dos holofotes nunca a deixaram tão velha, e sua carreira, de fato, agora estava reduzida a um rosto macilento e frio.
O arranhar da porta bruta quebrou o silêncio que a fazia refletir. Pela fresta, a camareira só espiou o péssimo estado dela; desistiu, voltou com seus aparatos e foi limpar outro camarim.
Porém, o silêncio é o que ela menos queria. Sentia que às vezes a reflexão atinge a gente de maneira ofensiva, que machuca, ilude, e depois termina com seus preceitos de um jeito incisivo.
Não podia refletir, não queria. Com um ímpeto, ufaniu-se pelo lixo que ainda era e saiu pelo camarim deixando toda a humildade nele. Queria beber seu licor diário, queria se vingar, queria mandar, queria a camareira, queria sangue, queria tudo; o surto psicótico fê-la parar por um momento qualquer. Repensou e não voltou atrás; saiu correndo pelos corredores do teatro, precisava descontar a ira da sua realidade em alguém, ah se precisava!
O silêncio do teatro assustou-a de um jeito desesperador. Como assim? Seu palco, sua casa, sua vida, nunca estiveram vazios. Não era possível aquele silêncio, não mesmo.
Desceu as escadarias com pressa incomum. O palco estava todo empoeirado, os holofotes, pênseis e quebrados.
Aquilo não poderia estar acontecendo com o seu palco, que sempre tinha sido seu fiel conselheiro de todas as horas, seu conforto e refúgio.
Saiu às pressas em direção à porta principal da casa de shows, estava emperrada, com um relatório de embargo e pesadas vigas em sua frente.
Viu a rua pela fina janela que ainda esboçava a vida lá fora: a pequena vila havia sido sufocada pelos gigantes de concreto, nas ruas, seus panfletos de sucesso haviam sido substituídos por letreiros digitais de outra musa, agora cheia de silicones e retalhos cirúrgicos.
Queria fugir, mas não conseguia. Queria chorar mas faltavam lágrimas para o seu arrependimento senil; rasgante, subiu ao palco e pôs se a soluçar no próprio pranto, apanhou seu último boá empoeirado e enrolou no próprio pescoço. Lembrava, com certeza, de sua inevitável Deixa cênica.
- Em que espelho - será - ficou perdida a minha face?
No palco, abriu um sorriso para o auditório vazio, já era feito. Ficou à mercê do destino. Quedou-se, agora sentia o cheiro da madeira podre, sim, era como ela; a consistência do mofo recém formado só trazia à tona seu amanhã.
Era um cheiro familiar, texturas aconchegantes e puras, que convidaram-na a se estender pelo palco de madeira podre e a apodrecer junto a ele. Não tardando, foi devorada sutilmente pelos ratos que antes aplaudiam a ela.
Estava consumado.